A pantufa de Nikita
Nikita aconchega-se na chaise-longue azul turquesa meio petróleo, equipada com a mais moderna tecnologia anti-ciclone: as pantufas armadas com berloques laterais e estampado frontal. Enquanto se queima, língua e dedo, em mais uma chávena de chá, e com o silêncio apenas quebrado pelo som da nostalgia ou do sporting a ganhar pela primeira vez na época, Nikita estremece e recorda aqueles momentos em que conseguiu escapar às garras de um destino gélido e tortuoso, perdida nos formulários bielorrussos, ou aquela vez em que as águas movediças do pinhal de leiria estiveram prestes a engoli-la, com carrinha e tudo...
...Da Bielorrússia com amor, e gripe.
Com quatro dias de antecedência, e a caminho de um casamento em Madrid, descobri que tinha que ir para a Bielorrússia. Pacífico. Não fosse ser a última ditadura da Europa e a viagem teria muito menos piada. Fora da comunidade europeia, zonas euro e espaços schengen, a perspectiva da tragico-comédia melhora bastante. Os 3 graus de temperatura à noite deram-me uma inflamação na garganta e 6 dias de cama. É. Diz que a Nikita não se deu bem com o sopro de leste e já só se pôs de pé à conta de esgotar o antibiótico e a paciência do médico grego. Apesar dos esforços e da simpatia do rapaz, só melhorou quando o autocarro de regresso ao aeroporto estacionou à porta do hotel.
37 horas e 74 formulários depois
Da maneira que saíam atrás umas das outras, as proezas e as desgraças, sentia-me de facto no país das matrioskas. De Lisboa ao Porto em comboio, do Porto a Frankfurt em avião atrasado para o voo de ligação a Varsóvia. Quando aterrámos, já tinha dado a volta à Europa por telefone para por fim conseguir que a embaixada da Bielorrússia na Polónia conseguisse passar 15 vistos de entrada. Faltava ir à embaixada pôr os vistos de todos no passaporte e fazer os seguros para conseguirmos passar a fronteira para Brest, em autocarro. Como é esperado, ninguém na embaixada falava inglês, eu não falo bielorrusso. Gestos, desenhos e uma garrafa de Porto estrategicamente metida na mala, garantiram os documentos já depois da hora de fecho. Ainda tive que ir a um pequeno bosque (sim, bosque) ao lado, para fazer os seguros de entrada numa pequena casa de madeira.
Nesta casa no meio da mata estava uma gorda sentada ao computador, com uma caixa de dinheiro e pilhas de dossiers de formulários. Qual bruxa na casinha de chocolate, a bielorrusa fechou-me lá dentro e forçou-me a preencher e assinar 45 formulários. Após a tortura, regressei ao aeroporto, descansada, a pensar que o pior já tinha passado.
Mas não tinha. Era noite e ficámos 4 horas parados na estrada pela polícia polaca, prenderam o motorista e levaram o autocarro. Deixaram-nos num hotel de berma de estrada até que apareceu novo autocarro. O excesso de horas de condução do homem e mais alguns problemas com documentos puseram mais um percalço na viagem. Entrei no autocarro, descansada, a pensar que o pior já tinha passado. Mas não tinha. Era noite e ficámos 3 horas parados na fronteira pela polícia bielorrussa. mais formulários. Entrei no autocarro, cansada. Paragem na segunda fronteira. Mais formulários. Desta vez já só foi meia hora e fui identificada pelos dentes. O guarda entrou, pegou nos passaportes e foi verificar um a um. Quando chegou a mim, eu já não sorria. Ele desconfiou. Sorri. E ele disse ahhhhh!... é que assim já estava igual à fotografia, com as bochechas para cima e os dentes de fora.
Saí de Lisboa numa segunda-feira às seis da tarde, entrei no hotel em Brest quarta-feira às seis da manhã. Pediram-me novamente os passaportes e mais formulários. Deitei-me. Da cama saíram mosquitos. Os que não voaram é porque já estavam mortos. A torneira da banheira era a mesma do lavatório. Os restantes 6 dias, como já se sabe, passei-os a trabalhar na cama.
Nikita passeia na lama ou as 24 horas de Pataias
Por falar em longas paragens no meio do nada, Nikita já de regresso à pátria reencontra o Robin e vão passear com o bando para a floresta. Umas dez motas e uma carrinha todo-o-terreno por trilhos nunca dantes navegados. Curva à esquerda a 90 graus no meio dos eucaliptos. Missão impossível para a Strakar. Vamos em frente, digo eu, direitinhos ao lamaçal escondido por debaixo da cama verde de folhas, raízes e terra. A carrinha enterra-se em segundos até ao eixo. Eu, até às orelhas, com a vergonha do disparate que tinha acabado de dizer.
Vieram as motas, e nada. Vieram os bombeiros, e nada. Pior. Atascaram também o tanque de 10 toneladas que tiveram a inteligência de trazer. Depois dos bombeiros conseguirem bloquear o caminho de saída, chegou a retroescavadora. Que se enterrou também no único espaço livre que havia para sair. Chegou o reboque da lenha, para puxar a retroescavadora, que por sua vez puxava o carro dos bombeiros, que por sua vez não se mexia um mílimetro. A embriaguez do tipo que conduzia o reboque levou-o a desatinar com o bombeiro, a virar costas e ir embora sem tentar tirar a carrinha. A retroescavadora também desistiu. Veredicto: 1 carrinha, 10 motas, 1 carro dos bombeiros, 1 retroescavadora e 1 reboque da lenha atolados ou empatados no meio do pinhal de Leiria, na mata de Pataias. 24 horas depois saiu.
Os planos próximos, que certamente vão degenerar nas Desventuras de uma Alforreca, incluem acabar o curso de mergulho, plantar uma árvore e ir até Lyon. Penso que mais umas semanas e começaremos a ter noção real dos efeitos da privação prolongada de nicotina no cérebro humano. Há 4 meses sem fumar!!!!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 18 de maio de 2009
La Casa Borícua
Joooder! Ostias!! No lo puedo creer!
Fazendo justiça à fama de croniqueira de viagens, conto-vos que estive em Puelto Lico, o que já não é novidade para ninguem. A novidade está em que não parou de chover e tive frio! Frio! Para além de não ter encontrado puertoriqueño que me aquecesse, depois do primeiro dia de calor, não parou a tormenta. E não dancei. Parece sina ou castigo. 10 dias em Cuba e salsa, só ouvida no corredor do hotel. 10 dias em Porto Rico e salsa, só nos corredores do supermercado.
E ainda mais ESTA
A aventura começou ainda em Portugal. O táxi marcado na noite anterior não aparece. Vai de ir rua acima e rua abaixo, a procura de um táxi, evitando a todo o custo as cagadelas dos pombos para não sujar nem as malas nem os sapatos.
Chego por fim ao aeroporto. Tem o ESTA? Não, não tenho - diziam que não era preciso imprimir a autorização de entrada nos EUA porque fica no sistema. Não posso deixá-la fazer o check-in sem o ESTA. Mas eu tenho o ESTA. Mas eu tenho que vê-lo em papel. Mas eu não tenho o papel. Não pode fazer o check-in. Tenho que fazer o check-in. Pode ir a casa buscar o papel. E o avião espera por mim? Não. Entao não posso ir a casa. Entao não pode fazer o check-in. Acabaram por me cobrar 20 euros por ESTA merda, para fazer um papel novo que só foi preciso em Portugal.
Se não deixei que um porco constipado que me impedisse de viajar, também não ia ser uma lesma ensonada que se ia meter no meu caminho.
Coño... e onde se meteram todos?
Chego a Porto Rico onde se supõe um comité de boas-vindas efusivo. Nada. Depois de passar uma hora no controlo a subornar o polícia com pastéis de nata para que não me ficasse com as garrafas de vinho do porto, nada. Depois de ver todas as entradas e saídas do aeroporto, nada. Resolvo ligar. Os telemóveis não funcionam. Nada. Espero. Nada. Comeco a ler as placas a minha volta para ver se não me tinha enganado no país. Nada. Salvou-me um chico guapo que me emprestou o telefone.
Por telefone fiquei a saber que a casa para onde ia ficava a hora e meia de distância de San Juan... no sul... no campo... no meio das cabras... e das putas das rãs que não se calam a noite toda. Rã que aqui se chama rã coqui e que já tem estatuto de vaca sagrada. Coqui porque é o que passa a noite toda a chilrear, grasnar ou cantar, dependendo da quantidade de vinho do porto que se tenha tomado.
Ai Mama! Que flaca!
Porto Rico é o exemplo de América Latina mais lavadinha que já vi, ou melhor, que já cheirei. E a mais obesa. E a mais América do Norte. Desde um McDonald's e um Burguer King a cada esquina, ao talk-show da manhã, dedicado ao suicídio e às depressões, patrocinado pelo Panadol, à esquizofrenia do controlo policial. Não havia sítio onde fosse onde não me perguntassem tudo, até que comecei a dizer quanto calçava, qual o meu prato favorito e que cor-de-rosa não me fica lá muito bem. Apesar de ser cara, descaracterizada, a ilha tem muito boa gente. Conquistavam o meu coração quando me perguntavam vezes sem conta, como é que consegues estar tão magra?? Além do sorriso, até a celulite se esticava toda. Adoro-te Porto Rico!!!
Quero ficar de quarentena!
Só me senti verdadeiramente borícua quando dei por mim a enfardar batatas fritas com coca-cola às 11h00. No único dia que consegui ir à praia, pavonear as estrias europeias e espalhar a minha crise dos 30 por águas caribenhas. Mas mais uma vez, aprendo mais com as partidas e com os regressos. Parece que há uma nova estirpe de vírus mexicano, com pelo menos 2 casos confirmados em Portugal. Consequências graves, uma vez que os dois tiveram morte súbita. Este vírus dá pelo nome de cobardia que degenera em aldrabice crónica e que mata. Mata qualquer vontade em mim de olhar para os seres enfermos. Depois de descobrir que tanto o mexicano, que ainda há uns dias cortava as veias, fazendo-me promessas de amor eterno, como os dois protagonistas da sequela portuguesa, têm casamento marcado, resta-me a pergunta: amigos, tenho cara de idiota?
Já deixei de roer as unhas e já uso saltos altos. Isto, só por si, já me devia dar o livre-trânsito para o mundo dos adultos. O que safa aqui esta princesa é que nunca foi de príncipes encantados (não que não vos goste de ver em collants), nem de cantar ou ir em cantigas. Também nunca foi apologista de toda a verdade, de grandes verdades. Toda a verdade pode ser crueldade. Mas e umas pequenas verdades, hein?
Mas há-que não generalizar. E da mesma forma que o tempo nos mostra tudo que precisamos saber, também nos dá a conhecer pessoas especiais. Adultos ou crianças. Um adulto na partida e uma criança no regresso. Um dos 9 cogumelos vai ser baptizado. Vou ser madrinha. Espero não traumatizar a criança. O que vale é que já tem idade para não se engasgar com água benta.
Fazendo justiça à fama de croniqueira de viagens, conto-vos que estive em Puelto Lico, o que já não é novidade para ninguem. A novidade está em que não parou de chover e tive frio! Frio! Para além de não ter encontrado puertoriqueño que me aquecesse, depois do primeiro dia de calor, não parou a tormenta. E não dancei. Parece sina ou castigo. 10 dias em Cuba e salsa, só ouvida no corredor do hotel. 10 dias em Porto Rico e salsa, só nos corredores do supermercado.
E ainda mais ESTA
A aventura começou ainda em Portugal. O táxi marcado na noite anterior não aparece. Vai de ir rua acima e rua abaixo, a procura de um táxi, evitando a todo o custo as cagadelas dos pombos para não sujar nem as malas nem os sapatos.
Chego por fim ao aeroporto. Tem o ESTA? Não, não tenho - diziam que não era preciso imprimir a autorização de entrada nos EUA porque fica no sistema. Não posso deixá-la fazer o check-in sem o ESTA. Mas eu tenho o ESTA. Mas eu tenho que vê-lo em papel. Mas eu não tenho o papel. Não pode fazer o check-in. Tenho que fazer o check-in. Pode ir a casa buscar o papel. E o avião espera por mim? Não. Entao não posso ir a casa. Entao não pode fazer o check-in. Acabaram por me cobrar 20 euros por ESTA merda, para fazer um papel novo que só foi preciso em Portugal.
Se não deixei que um porco constipado que me impedisse de viajar, também não ia ser uma lesma ensonada que se ia meter no meu caminho.
Coño... e onde se meteram todos?
Chego a Porto Rico onde se supõe um comité de boas-vindas efusivo. Nada. Depois de passar uma hora no controlo a subornar o polícia com pastéis de nata para que não me ficasse com as garrafas de vinho do porto, nada. Depois de ver todas as entradas e saídas do aeroporto, nada. Resolvo ligar. Os telemóveis não funcionam. Nada. Espero. Nada. Comeco a ler as placas a minha volta para ver se não me tinha enganado no país. Nada. Salvou-me um chico guapo que me emprestou o telefone.
Por telefone fiquei a saber que a casa para onde ia ficava a hora e meia de distância de San Juan... no sul... no campo... no meio das cabras... e das putas das rãs que não se calam a noite toda. Rã que aqui se chama rã coqui e que já tem estatuto de vaca sagrada. Coqui porque é o que passa a noite toda a chilrear, grasnar ou cantar, dependendo da quantidade de vinho do porto que se tenha tomado.
Ai Mama! Que flaca!
Porto Rico é o exemplo de América Latina mais lavadinha que já vi, ou melhor, que já cheirei. E a mais obesa. E a mais América do Norte. Desde um McDonald's e um Burguer King a cada esquina, ao talk-show da manhã, dedicado ao suicídio e às depressões, patrocinado pelo Panadol, à esquizofrenia do controlo policial. Não havia sítio onde fosse onde não me perguntassem tudo, até que comecei a dizer quanto calçava, qual o meu prato favorito e que cor-de-rosa não me fica lá muito bem. Apesar de ser cara, descaracterizada, a ilha tem muito boa gente. Conquistavam o meu coração quando me perguntavam vezes sem conta, como é que consegues estar tão magra?? Além do sorriso, até a celulite se esticava toda. Adoro-te Porto Rico!!!
Quero ficar de quarentena!
Só me senti verdadeiramente borícua quando dei por mim a enfardar batatas fritas com coca-cola às 11h00. No único dia que consegui ir à praia, pavonear as estrias europeias e espalhar a minha crise dos 30 por águas caribenhas. Mas mais uma vez, aprendo mais com as partidas e com os regressos. Parece que há uma nova estirpe de vírus mexicano, com pelo menos 2 casos confirmados em Portugal. Consequências graves, uma vez que os dois tiveram morte súbita. Este vírus dá pelo nome de cobardia que degenera em aldrabice crónica e que mata. Mata qualquer vontade em mim de olhar para os seres enfermos. Depois de descobrir que tanto o mexicano, que ainda há uns dias cortava as veias, fazendo-me promessas de amor eterno, como os dois protagonistas da sequela portuguesa, têm casamento marcado, resta-me a pergunta: amigos, tenho cara de idiota?
Já deixei de roer as unhas e já uso saltos altos. Isto, só por si, já me devia dar o livre-trânsito para o mundo dos adultos. O que safa aqui esta princesa é que nunca foi de príncipes encantados (não que não vos goste de ver em collants), nem de cantar ou ir em cantigas. Também nunca foi apologista de toda a verdade, de grandes verdades. Toda a verdade pode ser crueldade. Mas e umas pequenas verdades, hein?
Mas há-que não generalizar. E da mesma forma que o tempo nos mostra tudo que precisamos saber, também nos dá a conhecer pessoas especiais. Adultos ou crianças. Um adulto na partida e uma criança no regresso. Um dos 9 cogumelos vai ser baptizado. Vou ser madrinha. Espero não traumatizar a criança. O que vale é que já tem idade para não se engasgar com água benta.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
f***-**, roubaram-me a ideia!
Depois de dias de amarga produção académica, não me resta paciência para escrever, ainda que me sobrem as ideias. Partindo da ideia idiota que vi hoje na Visão - "Notícias que gostávamos de dar", inicio hoje a rubrica "Coisas que gostava de ter escrito mas não estou inspirada" ou "Coisas que vou fazer um dia destes" ou ainda, "f***-**, roubaram-me a ideia!".
Quero só explicar o porquê chamar idiota à secção da Visão. Escrevem grandes títulos com notícias falsas, boas, mas falsas. No canto, em pequenino colocam a legenda... notícias que gostávamos de dar. Nos primeiros segundos levam os leitores mais distraídos a pensar: mas que raio? então e eu não sabia de nada? Mas esta é a menos grave das consequências. Imaginem os pais da Maddie a ler que tinham encontrado a menina ou um seropositivo a pensar que era desta que tinha a cura para a sida. Imaginem-os agora a ler a legenda pequenina. Não se faz.
Deixo-vos com o aperitivo do texto em anexo "as mensagens de telemóveis deixaram-nos reduzidos a cuspidores de rajadinhas de emoções condensadas". Dedicado a todas as minhas relações virtuais. E a quem não percebe porque uso luvas sem dedos.
Leiam até ao fim que a sugestão é boa. Depois conto-vos como foi.
Qwert e o flutuário par ao cérebro
Boas flutuações.
Quero só explicar o porquê chamar idiota à secção da Visão. Escrevem grandes títulos com notícias falsas, boas, mas falsas. No canto, em pequenino colocam a legenda... notícias que gostávamos de dar. Nos primeiros segundos levam os leitores mais distraídos a pensar: mas que raio? então e eu não sabia de nada? Mas esta é a menos grave das consequências. Imaginem os pais da Maddie a ler que tinham encontrado a menina ou um seropositivo a pensar que era desta que tinha a cura para a sida. Imaginem-os agora a ler a legenda pequenina. Não se faz.
Deixo-vos com o aperitivo do texto em anexo "as mensagens de telemóveis deixaram-nos reduzidos a cuspidores de rajadinhas de emoções condensadas". Dedicado a todas as minhas relações virtuais. E a quem não percebe porque uso luvas sem dedos.
Leiam até ao fim que a sugestão é boa. Depois conto-vos como foi.
Qwert e o flutuário par ao cérebro
Boas flutuações.
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